Ansiedade social na infância e estilos parentais

Ansiedade social caracteriza-se por uma intensa ansiedade em uma variedade de situações sociais, seja de contato interpessoal ou de desempenho, ou mesmo ambas, acarretando sofrimento excessivo ou interferindo de forma acentuada no dia-a-dia da pessoa. Existe o medo de ser avaliado e um sentimento de incapacidade, em se comportar de um modo humilhante ou embaraçoso e consequente desaprovação e rejeição por parte dos outros resultando em comportamento de fuga e/ou esquiva a um estímulo social percebido como aversivo. A ansiedade social é um transtorno de evolução crônica e os pacientes evitam ficar em destaque em qualquer situação, agem de acordo com regras muito rígidas de comportamento, procuram controlar a ansiedade antecipatória, apresentam medo do desconhecido e timidez. Tomadas em conjunto essas características, levam a uma má qualidade de vida, que também é impactada por uma incapacidade de definir metas claras e objetivas.

A literatura sugere um curso de desenvolvimento da ansiedade social que incorpora variáveis filogenéticas e ontogenéticas.

As variáveis estilos parentais, relações com colegas,  problemas de internalização, apego na díade criança- pais e ansiedade dos pais, estão realcionadas ao desenvolvimento do TAS. Ollendick & Benoit, 2012

Na história de vida podemos verificar algumas situações que possam vir a ser fatores que predispõem ao desenvolvimento da ansiedade social . Uma das possibilidades é de a ansiedade social se desenvolver como consequência de uma ou mais experiências de condicionamento traumático como no bulling, por exemplo.

A aprendizagem por modelação é outra possibilidade de aquisição de fobia  social. Os pais de pessoas com fobia social costumavam evitar situações sociais, o que os tornava modelo nestas situações. O encorajamento dos pais na sociabilidade dos filhos gera oportunidades para aquisição de habilidades sociais, expõe a criança a novas situações sociais, promovendo a extinção de medos sociais (Falcone, 2000).

A ansiedade social é caracterizada por uma ansiedade acentuada e persistente, Uma comparação direta entre ontogênese e filogênese da ansiedade social revela que a forma da resposta é caracterizada pelo viés da interpretação das situações   desencadeadas por estímulos específicos e presumivelmente baseadas em uma preparação biológica Mühlberger,  Wiedemann,  Herrmann & Pauli  2006

Estilos parentais

Os estilos de rejeição e de superproteção dos familiares são mais fortemente associados com a inibição social.  Crianças com elevada necessidade de aprovação percebem os pais como rejeitadores. Pais são percebidos como não disponíveis e não responsáveis, gerando sentimentos de insegurança. Tais sentimentos se generalizam para outros relacionamentos e podem produzir crença complementar de pouca auto-confiança e de incompetência. Jovens com pais superprotetores tem tendencia a apresentar sintomas de ansiedade social e pior rendimento academico Camacho e Matos, 2007.  A responsividade maternal à comunicação na infância durante os primeiros dois anos e meio estavam inversamente relacionadas a níveis de timidez. A personalidade materna caracterizada por nervosismo, disforia, irritabilidade e inibição foram correlacionadas a níveis de timidez em garotas de 4 a 18 meses por Engfer 1993 As mães de crianças tímidas são mais propensas do que as mães de crianças não tímidas a acreditar que: as habilidades sociais são melhor ensinadas de uma maneira diretiva (dizendo exatamente como agir) em vez de outra maneira (experiência pessoal)acreditavam mais fortemente que comportamentos inábeis deveriam ser respondidos de uma maneira diretiva ou corretiva eram também mais propensas a sentir raiva, desapontamento, culpa e embaraço pelos comportamentos inábeis de seus filhos eram mais propensas a atribuir esses comportamentos inábeis a traços de seus filhos do que a humor ou fatores relacionados à idade. Ansiedade social está associada com história de maus tratos tanto físico quanto sexual, mas também abuso emocional e negligência Iffland e colb. 2012. A socialização dos papéis sexuais também pode estar associada a ansiedade social. É mais apropriado para as garotas do que para os garotos ser visto como tímido. Os pais são mais propensos a advertir seus filhos do que suas filhas por comportamento tímido e inibido.

Treinamento de pais para expressar emoções tem efeito positivo na melhora da ansiedade social dos filhos.

 Relacionamento com os pares

Crianças e adolescentes tímidos parecem estar mais propensos a experimentar relações negativas com os seus colegas. A inibição e o retraimento da criança tímida é percebido como desviante do comportamento social apropriado à idade pelo grupo de colegas, sendo respondido com negligência, rejeição ou maltrato.   Crianças com ansiedade social eram percebidas pelos colegas como menos agradáveis e consequentemente menos desejadas no grupo social. Exibiam padrões de fala ansiosos, latências nas conversações, poucas vocalizações espontaneas, e respostas sociais de baixa eficácia Scharfstein & Beidel, 2014. Crianças fóbicas percebem o ambiente mais negativamente. Tem uma estimativa reduzida de sua própria competência de lidar com o perigo. Mostram padrões cognitivos impeditivos ao enfrentamento a situações ambíguas.     Ansiedade social com início precoce tem um risco maior de tornar-se crônica sem intervenção apropriada.

A identificação e o tratamento precoces da ansiedade social pode evitar repercussões negativas na vida da criança, tais como faltas constantes à escola e a consequente evasão escolar, ou mesmo a utilização demasiada de serviços de pediatria por queixas somáticas associadas à ansiedade.

REFERÊNCIAS

Camacho, I.; Matos,M.G. 2007, Práticas parentais educativas, fobia social e rendimento acadêmico em adolescentes. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, 3:2: versão on line

Engfer, A. (1993). Antecedents and consequences of shyness in boys and girls: A 6 year longitudinal study. In K. H. Rubin & J. Asendorpf (Eds.), Social withdrawal, inhibition, and shyness in childhood (pp. 49-80). Hillsdale, NJ: Lawrence Erlbaum Associates.

Falcone, E. M. O..(2000) Ansiedade social normal e ansiedade fóbica – limites e fundamentos etológicos. Revista de Psiquiatria Clínica, 27: 301-308..

Iffland,B, ;Sansen,L.; Catani,C.; Neuner,F.  (2012) Emotional but not physical maltreatment is independently related to psychopathology in subjects with various degrees of social naxiety: a web-based internet survey. BMC Psychiatry: 12: (49): 35-42.

Scharfstein, L.A.; & Beidel. D.C. (2014) Social Skills and Social Acceptance in Children with Anxiety Disorders. Journal of Clinical Child & Adolescent Psychology: 44(5): 826-838.

Mühlberger AWiedemann GHerrmann MJ,  (2006) Pauli P. Phylo- and ontogenetic fears and the expectation of danger: differences between spider- and flight-phobic subjects in cognitive and physiological responses to disorder-specific stimuli. J Abnorm Psychol. 115(3):580-9.

Ollendick, T.H.: Bernoit, K. E. (2012). A parent-child international model of social anxitey desordem in youth. Cila. Child. Faz. Psychol Ver: 15(1): 81-91.

Por: Mariangela Gentil Savoia

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